segunda-feira, janeiro 24, 2005

A terra das acácias rubras...

...(conheces, Dona Kamia? Cuia bué...)

Ainda agora cheguei e já me ponho a viajar (finalmente!).
Ainda agora cheguei e já tenho saudades (vossas, presumo.)

Na semana passada fui até Benguela. Ainda sem muito trabalho (as escolas ainda descansam intervalo prolongado) ofereci-me para ajudar uma organização que acolhe (e recolhe) putos de rua. Quatro táxis (carrinhas podres, retalhos de lata saltitantes), trinta e quatro miúdos (entre os sete e os dezoito), meia dúzia de adultos (mais eu que fico no meio termo duvidoso e oscilante quando a força dominante e contagiante é a meninice), trezentos e pico quilómetros de estrada esburacada, dez horas de viagem torturante, saltitante, daquelas em que até um descrente se benze em cada guinada e pede a deus para, pelo menos, continuar a bater assim com a cabeça no teto mas que seja só isso. Angola brotou com as chuvas enquanto estive em Portugal. Um manto verde cobre todo o planalto central. No meio das planícies sobressaem os embondeiros e as enormes montanhas de uma só pedra maciça. Dez horas que valem bem a pena, mesmo para uma ensonada como eu. Com o aproximar da costa tudo fica mais seco, a terra é de um amarelo pálido, quase branca, e os morros apinhados de casas de adobe que mal se distinguem da terra (entre Lobito e Benguela) relembram um qualquer país árabe. E finalmente Benguela e as acácias rubras... finalmente uma cidade sem marcas evidentes da guerra.e o calor que nos faz espreguiçar o dia inteiro, certificando que os ossos ainda não derreteram.

Quatro dias de mar com a euforia de quem nunca viu o mar. A areia não tem interesse. A água imensa, só a água é suficiente para horas e horas de gargalhada e distracção. Incrível. Quem sabe se os putos vivessem à beira mar acalmassem a agressividade?, única defesa, principal modo de comunicação. Putos de rua em Angola! Ninguém lhes sabe a idade. Repara-se na dentição dos mais pequenos ou nas características sexuais secundárias (e não só) dos mais crescidos. O tamanho não diz muito (atrofia por subnutrição ou negligência emocional ou qualquer outro motivo). Os olhos também não. Afinal os meninos do Huambo já parecem ter aprendido o que custou a liberdade. Descobri que maior insulto do que “a tua mãe é uma puta” é “a tua mãe cheira gasolina”. Pois deve cheirar... muitos deles também, pelos vistos. “Disseram-me que o cigarro ajudava a esquecer. É por isso que fumas? É verdade, Cristina?”. “Não, claro que não”. (Tem dez anos e quer esquecer?!) Estava lá o Zé Pequeno. Outro, para já, não o do filme. E mais um outro Zé (Zé Ngulo, traduzindo, Zé Porco - todos têm alcunhas) que cresceu e engordou deliciando-se com ratos e gatos, predador-mor da cadeia alimentar de seres que habitam o lixo, não fossem os outros, de metade do tamanho, abusarem no gozo e na pancada.
E se não fosse também esta consciência de que os emails não podem ser muito longos e aborrecidos senão nunca mais ninguém os lê, ficaria aqui distraída a pormenorizar a beleza (às vezes mórbida) destes dias. Se andasse por aqui um puto dir-me-ía “Cristina está a falar bué, está a falar à toa... vem só”. “Só” é a palavra mais usada por estas terras, dá só dez, brincá só, anda só (...) (como quem repete a toda a hora: faz simplesmente e não penses mais nisso).

Cinco dias fantásticos, lá no quê, com os coisos.

Aprendi ainda que se pode morrer de repletice (mais uma palavra fantástica e o estúpido do computador sublinha a vermelho por baixo). Conseguem perceber o significado, ou vão desconseguir?

Hasta la vista. Agora é tempo de trabalhar.