O candongueiro (só para quem gosta de longas viagens...)
Fim de tarde, final de fim-de-semana na praia de grilos gigantes. Andar na areia descalço era uma aventura, tentando não esmagar os dóceis animais que preenchiam a paisagem por isso mesmo peculiar.
Fim de tarde de rostos queimados e olhos cansados do sol, do sal e do riso. De volta a casa, a uma casa qualquer que nos desse um banho de chuveiro, um chão para suportar as mochilas, um frigorífico recheado, uma cama que nos engolisse como caverna de hibernação, os amigos, rostos comuns, familiaridade que não dá que pensar. De volta a Luanda, pensava eu.
No encontro entre o caminho e a estrada alguém vê passar um desses carros de passageiros que em toda a África têm nomes e ambientes especiais – o candongueiro. Distraída no meu deleite romântico de quem repete silenciosa e incansavelmente "I had a dream...", olhando já com saudade para essa África dos meus sonhos, estendida na caixa aberta da carrinha dos amigos, entre as árvores, macaquinhos, terra vermelha e um cigarro, ignorava o facto do nosso carro seguir em sentido contrário de Luanda.
Uma ultrapassagem, um carro cheio de gente agora à minha frente, atrás do carro dos meus amigos, e o motorista a mandar beijinhos para as minhas pernas desprevenidas de saia curta. De repente uma paragem. Os nossos amigos, anjos da guarda do nosso destino, saem e perguntam ao homem dos beijinhos se vai para sul. "Ai vai? Tem lugar para estas duas meninas?". Claro que tem lugar, acaso não conhecem a piada destas bandas: "Quantas pessoas cabem num carro de um Angolano?" "Sempre mais uma". (...) A excitação da despedida dos amigos, daqueles que se voltarão a encontrar talvez um dia, talvez num outro mundo e que deixam previsões de carências.
Tudo começou com a visita de uma antiga amiga, chegada do cosmopolitismo de Barcelona , da Europa, directamente para a nova Babilónia, a capital desta nossa Angola querida, famosa pelos formigueiros de povo e o palácio dos papa-formigas, não esquecendo as colecções artísticas de detritos (sobre-) humanos e os famosos espaços nocturnos de glamour e atentado ao pudor e à boa moralidade (e também à resistência) de qualquer um desses seres transparentes do norte do mundo. Acabadinha de chegar, sem ponto de referência, sem cor na pele, sem guia turístico, sem livro de reclamações. Um belo reencontro de conterrâneas no aeroporto de priscas no chão, um abraço, dois jantares em terraços da capital, uma lagosta na praia e... aqui estamos nós outra vez, de mochilas às costas, beijos e abraços para vocês amigos, até um dia, talvez sintamos saudades e lá dentro "querem entrar ou não? Comé? Queremos continuar a viagem...Dois mil kuanzas até ao Sumbe...".
Os passageiros a reclamar: "não há lugar... vão sentar onde? Não táver? Tá cheio. Achi!!... Aiué..." Não se preocupem, alguns sacos podem ir em cima de nós, nós somos magrinhas por isso cabemos em pouco espaço e também vamos já sair ali no Sumbe, é só uma hora, não é? Ora passe-me para cá a criança que está com sono e eu gosto destas coisas de me fingir de mãe extremosa. Com tanta simpatia e boa disposição lá se foram abrindo dois buraquinhos no meio da multidão, cada um com capacidade para meia nádega, com a vantagem de movimentos corporais com margem até 1cm e ainda, e ainda!, o brinde de um possível encosto cambaleante de sono a um vietnamita maluco (a mim parecem-me todos malucos, os orientais, desculpem a simplicidade do comentário), no caso da visitante, ou a uma senhora de simpatia desdentada, no caso da voluntária missionária, ou seja, eu. Ainda mal instaladas e já uma de nós com direito a apelido de colona e, ao mesmo tempo, da informação de uma viajante que vive em Portugal, trabalha no Ecomarché e vai com a minha mochila aos pés por isso não tenho de me preocupar. O sentimento de segurança que nos transmite alguém que já viu a obra do Marquês de Pombal!
Com a história da criança no colo ganhei direito a informação privilegiada sussurrada no gaguejar do pai ao lado: "Ao Sumbe só vão chegar de noite". Aiiééééé? (perguntei admirada, já com a pronúncia da terra. Convém sempre disfarçar, mostrar que não somos turistas, que temos experiência local, conhecemos usos e costumes, manhas e vícios e até uma palavrinha ou outra de um qualquer dialecto).
De hora a hora uma aventura, uma paragem. A primeira, do pneu furado, foi estratégica, em frente a um pequeno povoado de meio de estrada, de comerciantes de funje com conduto, gasosas e cervejas. Aí surge-nos a primeira dúvida, talvez seja melhor seguirmos com eles até Lobito ou Benguela, não conhecemos o Sumbe e vamos chegar de noite. Talvez... Temos tempo para decidir...
Numa viagem assim, as articulações doem quase tanto como com malária. As gargalhadas surgem por necessidade espontânea, entre o sono leve de cabeça largada em constante rotação ouve-se falar do tempo da guerra, dos caminhos, das emboscadas, perguntam-nos de onde somos, para onde vamos, todos temos de nos conhecer pois, ainda que por tempo limitado, estaremos todos dentro do mesmo barco, ou melhor, candongueiro, e assim satisfaremos os requisitos necessários à nomeação de comunidade. Os nomes não interessam, a não ser que sejamos xarás, mas há histórias para contar e entreter o tempo.
Mais uma hora e o cobrador a precisar de mais cerveja. A comunidade não aprova, reclama individualmente, sem porta-voz, sem voz...
Mais outra hora e o condutor está cansado, está escuro e as infinitas rectas das estradas africanas, a fuga aos buracos e os saltos não são suficientes para animar corpos fatigados do sol que nos suga até ao tutano. Ainda bem, porque é tempo de partilha de sentimentos e de estalar de ossos enferrujados, lá fora, sentadas na terra da estrada, de cigarro na mão e céu imenso e estrelado, de mosquitos, repelente e xixi fumado por tubo de escape, já que as bermas e o mato imenso são campo minado de medos obscuros.
Para entrar no nosso carro familiar, tinha sempre de puxar a saia até às cuecas, conseguindo assim saltar em bicos de pé por cima de malas, bancos e pessoas. E cada entrada era um respirar fundo, na expectativa de nova aventura e novo sonho na Restinga.
O relógio a marcar compasso. Desta vez caíu um vidro do carro, alguém avisa, sente-se a aragem fresca da noite nas costas e ignora-se o acontecido, tão acostumados que estamos a este tipo de (im)previstos. O cansaço anestesia dores e o silêncio aproveita-se da distracção do corpo tornando-se soberano. Uma voz entra-nos no sono, esforçando-se por se fazer ouvir, alertando alguém por malas que caíram, fugiram do carro pela janela sem vidro, o vidro que saiu do carro de pneu remendado, cobrador embriagado e motorista cansado. A mala do meu vizinho, do pai carinhoso da criança que me baba a camisola, que vende cd`s na rua e trazia ali o sustento para o próximo mês, a mercadoria preciosa para vender nas ruas de sombra de acácias... felizmente e com a solidariedade de todos, a mala encontrou-se entre o capim húmido de orvalho e assim deixámos mais uma hora passar por nós.
Depois disso gostaria de ter fotografado a minha amiga de olhos grandes abertos, o vietnamita de olhos pequenos fechados e braços ao redor do seu corpo magro paralisado, cooperando comigo nesta missão de fazê-la sentir-se confortável neste país estrangeiro, e com esses olhos grandes ter visto também o moço da frente, a massajar docemente o sexo sem valor da jovem rapariga bonita e desleixada, sentada do outro lado da minha amiga.
Mais algumas horas, mais algumas discussões violentas, mais alguns filhos da puta, mais algumas simpatias, mais alguns sorrisos, mais algumas avarias, mais algumas músicas, e finalmente! Até que enfim...
Treze horas de viagem comovente e um amanhecer dourado com direito a neblina prateada, um tesouro pitoresco, as duas num pequeno banco de passeio, de pernas esticadas, em frente do Porto do Lobito. Talvez aqui tenha tirado uma foto. Se sair, um dia mostro-vos como ando à procura do paraíso.




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