terça-feira, fevereiro 01, 2005

Mais uma vez... desculpem lá!

Tenho de continuar a falar das crianças. São o único estímulo, hoje em dia, que provoca esta vontade de escrever.
Quintal sem deus
O Beni, o Bento e o Litelato. Nunca os vi discutir, nunca os vi lutar, provocar, fogem da agressividade como gatos escaldados da água fria, motivo suficiente para afinidades entre nós, apesar de virmos de mundos mais oblíquos que paralelos. Vieram visitar-me ontem. Descobriram o meu palácio, raposas matreiras que farejam rastos.
"Beni, estavas triste hoje de manhã?", "Não, fico nervoso quando começam a confusionar, aqueles grandes estão a me provocar, fico bué nervoso".
Entrem. Sentem-se. Tomem lá uma pastilha para cada um. (O que se conversa com crianças de rua numa sala de adultos e sofás e estantes e computadores? O que é que eu faço agora?). Há muitas histórias para contar. Afinal ainda agora cheguei e para entrar na família é preciso inteirar-me das mil e uma estórias dos grandes Puuuuto Cebola e Puuuto Ananás!
"Agora mesmo, depois da Cristina basar, o guarda atirou com um martelo destes assim grandes (talvez uma picareta!) às costas do Nelo. Estava a sofrer bué. Disse que ía à polícia. O Azarado ainda aproximou." Vocês não se defendem uns aos outros? "Não dá Cristina, tem que ser cada um por si, senão todos vão levar".
O Litelato não fala, ouve só mais um relato de vida vulgar e tapa os olhos com a vergonha quando me dirijo a ele com sorrisos. O Beni e o Bento, os dois apertados no mesmo sofá, um corpo dividido em duas cabeças e quatro mãos que riem e gesticulam a contar ininterruptamente As Aventuras do Quintal (quintal é o meio tecto que os abriga das intempéries, não de todas, como contarei).
E eu a rir com eles, não sei se partilhando com eles o sentimento de quem ri por já não encontrar modo diferente de lidar com a desgraça que se vai tornando curriqueira, ou se delirando com a banda desenhada de super-heróis que se desenrolava à minha frente.
"Antes era pior. O quê, um outro mais velho, uma vez veio com três pregos. Nós éramos três também, eu, o Beni e o Coiso. Eu tinha de engolir um, o Beni espetar assim na orelha e o Coiso tinha de espetar dentro do olho, assim". Grande gargalhada geral (talvez iniciada e por mim. Um bom narrador espera sempre que a assistência ria primeiro), tão espontânea, espectadores viciados em comédia negra, mordaz demais. E o que aconteceu afinal? "Ficámos a chorar bué, não aceitamos, choramos bué e depois ele largou.". Faz-me bem sentir que ainda há tanta humanidade!
E continuava o Bento, sempre com aquele sorriso doce, de boca cheia de pureza, "Esses mais velhos estavam sempre a pedir-nos dinheiro. À noite passavam nos nossos quartos para ver o que tínhamos para eles. Como não tínhamos nada era sempre a levar mais. Mijavam para cima de nós, obrigavam mesmo a abrir a boca para mijarem.". (...) "E os quê, fumam bué, não desses cigarros, droga e compram bué de comprimidos lá no mercado, é assim Cristina, tomas três com bebida e ficas três dias assim a andar...".
Bom, eu estava a ver um filme quando vocês chegaram (sobre o 11 de Setembro, não me parece que vos interesse). Que filmes vocês gostam de ver? "Desses de luta, murro, cuia bué". Pois não tenho aqui nenhum. Se calhar é melhor vocês irem andando para o Quintal, ainda é longe. Gostei muito da vossa visita. (Há muito tempo que não ria assim).